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Oito Passos de Patanjali

24 de abril de 2021
Yoga
por Namah

YOGA ALÉM DA PRÁTICA FÍSICA

No ocidente, quando se fala em Yoga, a maioria das pessoas visualiza posturas semi-acrobáticas, executadas por praticantes agraciados com um físico forte e flexível. Contudo, os ásanas (nome em sânscrito usado para designar as posturas) são apenas um dos componentes que integram essa prática.

É natural que a prática física seja a porta de entrada, para a grande maioria das pessoas. Mas, a medida que o praticamente integra disciplina, presença e devoção, Yoga deixa de ser exercício e se torna uma ferramenta de transformação.

 

YOGA SUTRAS DE PATANJALI

Para balizar o mergulho espiritual que essa filosofia propõe, algumas escrituras milenares servem como norte. Talvez as mais difundidas no ocidente sejam os Sutras, e o Bhagavad Gita - ainda que existam outras tantas de igual importância.

O Gita pode ser percebido como uma abordagem mais espiritual, enquanto os Sutras apresentam conceitos mais práticos. Razão pela qual seja mais comum aos praticantes elegerem os Yoga Sutras de Patanjali como teoria base para conduzir a prática - dentro e fora do tapete. 

Patanjali foi um yogi que há 2.000 anos atrás compilou os ensinamentos de Yoga então existentes, e sumarizou em 196 sutras, que são hoje reunidos e expostos em forma de livro. Sutras são frase simples que carregam um significado profundo. Mas, como simples nem sempre significa fácil, a 

interpretação desse texto pode ser, muitas vezes, desafiadora e controversa. 

Em decorrência da abrangência dessas interpretações, existe uma infinidade de publicações comentadas, cuja finalidade é destrinchar a mensagem por trás das palavras de Patanjali. Mas uma vez que toda interpretação é carregada de percepções pessoais, a natureza dos comentários varia.

A verdade é que, além do sânscrito - lingua na qual os sutras foram escritos - não permitir tradução literal, Patanjali não elabora ou especifica precisamente a forma como devemos praticar os ensinamentos. Os sutras definem os nomes e tipos de práticas, bem como seus efeitos. Mas não clarifica os detalhes. Por isso há tanto espaço para divergentes interpretações.

Como praticante dessa filosofia milenar, o que é importante ter em mente é que as conclusões de como aplicar os conceitos no dia-a-dia surgem como consequência de uma auto-observação honesta, a partir da qual cada indivíduo ganha clareza de seus pontos frágeis, e trabalha no sentido de melhorar sua atuação na vida, e não apenas no tapete.

YOGA SUTRA E OS OITO PASSOS

No segundo capítulo desse livro, Patanjali expõe o caminho a ser percorrido pelo praticante de yoga, que composto por oito passos.

Ao contrário do que muitos pensam, a palavra Ashtanga não se refere apenas à modalidade de yoga criada por Pathabi Jois - que é denominada Ashtanga Vinyasa Yoga - mas pode ser traduzida como “oito passos”. (em sânscrito, ashta = oito anga = passos) Refere-se, em origem, ao caminho exposto por Patanjali no capítulo dois, que direciona a prática de yoga em oito partes:

 

  1. Yamas - condutas éticas
  2. Nyamas - observações pessoais
  3. Ásana - prática de posturas
  4. Pranayama - práticas de controle de respiração
  5. Prathyhara - abstração dos sentidos
  6. Dharana - manutenção da concentração 
  7. Dhyana - estado meditativo 
  8. Samadhi - experiência de integração da self ao todo
 

YAMAS & NYAMAS

Os dois primeiros passos têm cinco subdivisões cada, e podem ser percebidos como fronteiras que estabelecemos para nós mesmos, a fim de balizar nosso próprio comportamento e ter uma postura mais coerente também no trato com outras pessoas. Fronteiras saudáveis funcionam bem como ferramentas de autopercepção. 

1.Yamas

Passo número um: yamas.

Os yamas se referem a um código de cinco condutas baseadas em autorresponsabilidade e na nossa forma relacionar com as outras pessoas. 

É claro que, quando estamos em perfeita harmonia com a nossa essência, a prática dos Yamas se manifesta de forma natural e espontânea. Mas, até que isso aconteça, vale o empenho de buscar e cultivar tais condutas, com a mesma dedicação que tentamos aprimorar os movimentos do nosso corpo na prática física.

Contudo, algumas vezes os yamas podem causar rigidez na interpretação, e na conduta. Por isso, precisamos nos certificar de que vamos estabelecer fronteiras saudáveis e sustentáveis para as nossas ações, e não metas que não sejam sustentáveis ou realistas com a realidade de quem somos.

Pode ser que, no início, um yama faça mais sentido para nós, do que outros. Se isso acontecer com você, comece por ele. Trabalhe com empenho para aprimorar suas condutas, e você vai perceber que naturalmente os demais serão integrados.

1.1 Ahimsa

O primeiro yama é chamado AHIMSA, e é comumente traduzido como “não violência”. 

Significa, em última instância, não fazer mal à nos mesmos, ou a outros seres. 

Numa abordagem profunda, refere-se à ausência de qualquer tipo de violência dentro de nós. Quando não há violência dentro, é impossível transbordar violência para o lado de fora. 

Porém, se ainda não atingimos esse estágio, podemos gradativamente praticar ahimsa no dia-a-dia. Seja por meio de uma alimentação menos violenta, seja por substituir nossos pensamentos agressivos por abordagens compassivas, seja por vigiar nossa tendência a criticar, julgar e condenar.

Pode parecer óbvio, e até um pouco piegas, mas sejamos honestos: uma coisa é saber na teoria, e outra bem diferente é fazer disso um exercício prático.

Ahimsa é o primeiro yama porque é a base para todos os outros. A semente para cultivar os yamas que seguem é a atitude não violenta.

1.2 Satya

Satya é o segundo yama e significa honestidade. Refere-se ao compromisso sincero com a verdade. 

Vem depois de ahimsa não por acaso, mas para ancorar a necessidade de ser compassivo e não violento ao expressar a verdade. 

Existe um texto Hindu que resume bem a manifestação de Satya após a integração de Ahimsa:

“Não diga nada verdadeiro que não seja amoroso. E não diga nada amoroso, que não seja verdadeiro.”

Não é sobre apenas sair por ai falando verdades, mas sobre ser verdadeiro de forma alinhada ao dharma e ao bem coletivo.

Indo além, é sobre também ser cuidadoso com as palavras, para que a verdade chegue com a correta intenção, e sem possibilidades de distorções.

1.3 Asteya

Numa tradução simples e literal, poderia-se dizer que asteya significa não roubar. Porém, aprofundando um pouco mais, pode-se considerar que refere-se a ausência de de necessidade de tomar o que é de outras pessoas. E isso não é limitado à objetos, mas também à ideias, projetos e conquistas.

Não se aproprie de ideias alheias como se fossem suas. Dê créditos. Honre a origem. Isso é praticar asteya.

E, em última instância, não deve-se roubar o recurso mais importante que as pessoas têm: o tempo. Não se aproprie do tempo alheio sem que tenha tido permissão para isso. Não há como repor tempo perdido, e por isso roubar tempo muitas vezes pode ser mais grave do que se apropriar de algo material.

1.4 Brahmacharya

Refere-se à responsabilidade com a conduta sexual.

Brahmacharya é um tópico bem relevante nos textos de yoga porque é dito que a prática sexual feita sem responsabilidade nos faz perder vitalidade.

A atração sexual é algo que tem muita força para nos distrair e se tornar um impedimento para o nosso estado de presença e clareza. É fácil se perder na ilusão de que o contentamento vem de estímulos sensoriais. 

Vamos relembrar que os yamas se referem às interações com outras pessoas, e é por isso que o brahmacharya aparece como uma subdivisão desse tópico, já que diz respeito à nossa conduta sexual perante os outros, e não somente perante nós mesmos. Quando não somos sexualmente responsáveis, usamos as pessoas de forma egoísta e apenas para a realização dos nossos desejos.

Alguns textos sugerem o brahmacharya como a restrição do impulso sexual. Contudo, é mais realista e honesto perceber como podemos fazer uso consciente da nossa energia sexual do que aspirar por um objetivo que pode não corresponder às nossas verdadeiras aspirações.

1.5 Aparigraha

As traduções mais comuns do último yama sugerem o desapego, o “não acumular” e o não ser ganancioso com o que é dos outros.

Não acreditar que seu contentamento está em algum objeto, não ser apegado.

Praticar o desapego não quer dizer abster de conforto, mas sim de não ser dependente de nada para ter contentamento. É sobre mudar a relação com objetos materiais de forma a não ser controlado por eles.

Você pode ter coisas materiais, mas aparigraha é sobre não depender delas.

2. NYAMAS

Os Nyamas são o segundo passo, e se referem às condutas envolvidas na nossa vida interior.

2.1 Saucha

Refere-se à pureza e purificação – da mente e do corpo.

Da corpo: higiene pessoal e ambiental.

Da mente: cultivo de uma mente pura. 

Cultivar uma mente pura, contudo, pode parecer utópico. Afinal, somos humanos e vamos experimentar raiva, orgulho, tristeza, vaidade. O importante é não ser dominado por essas emoções. É saber voltar à própria essência luminosa depois de sentir as emoções tóxicas, ao invés de se perder nelas. É ter consciência de quando estamos atuando a partir da nossa sombra, ou a partir da nossa luz.

2.2 Santocha

Significa contentamento, e se refere à nossa habilidade de nos sentirmos preenchidos independente do que se manifeste no mundo exterior. É um estado mental estável, que não flutua de acordo com as nossas frustrações. Numa analise pessoal, eu diria que é o estado em que o nosso senso de gratidão e equanimidade se tornam constantes, dentro de de nós.

2.3 Tapas

A tradução mais apropriada (e não necessariamente literal) para tapas é disciplina. Trata de ter uma prática diária que te desafie de alguma forma. Não necessariamente uma prátcia de ásana. Meditação, pranayama e mantras também são possibilidades de exercitar nossa disciplina. 

Tapas é um stress positivo que nos leva a criar resiliência. É sobre ser desafiado e não desistir. É sobre encarar o desconforto sem querer dar um passo para trás. É sobre construir força interna. É a nossa habilidade de abrir mão de prazeres imediatos para fomentar nosso bem-estar no longo prazo.

Tapas deve nos ajudar a construir energia. Se você a prática física leva à exaustão, talvez esteja indo além do limite. Nesse caso, é mais provável que construa lesões do que força.

2.4 Svadhyaya

Aqui está representada a importância do autoestudo. No caminho do yoga a revisão interna é crucial. Devemos usar as escrituras como material de estudo, e devemos constantemente observar nossas condutas para perceber se estamos experienciando aquilo que estudamos. Compreender conceitos com a mente é uma coisa. Trazer para o dia-a-dia é outra. 

O autoestudo vai demandar humildade e honestidade para que possamos admitir onde ainda precisamos crescer.

2.5 Ishvara Pranidhana

Devoção e entrega à Deus, ou ao desconhecido. 

É a compreensão de que há algo maior, e a disponibilidade de agir e entregar o resultado da ação ao Universo.

YAMAS E NYAMAS NA VIDA PRÁTICA:

Os yamas e nyamas não são mandamentos enviados por Deus, como são os dez mandamentos. Não funcionam como ordem de moral. São instruções dadas pelos antigos yogis que perceberam, através da própria experiência, os efeitos positivos dessas práticas.

São pontos de reflexão para que impedem que o Yoga seja usado como ferramenta que crie uma falsa identidade. Yoga é um caminho para a verdade, e isso inclui reconhecer a verdade sobre nós, e não criar estereótipos ou autoidealizações.

Os Yamas e Nyamas são ótimos pontos de partida para checarmos onde ainda estamos presos, e em quais aspectos precisamos nos desenvolver. São “nortes” de auto-observação.

A ideia não é ser praticá-los de forma 100% eficiente, mas usá-los como referência para percebermos onde há espaço para a transformação das nossas condutas – conosco e com os outros.

3. ASANA

Etimologicamente palavra ásana é composta por duas partes:

“as”: sentar | “ana”: respirar

Praticar ásanas literalmente significa sentar-se com a sua respiração.

Hoje em dia, a prática das posturas é a parte mais visível do yoga. Geralmente quando alguém diz que pratica ou ensina yoga, estão se referindo aos ásanas. Porém, Yoga é uma prática interna. O que acontece internamente na execução de uma postura é o que te fato vai te conduzir à transformação da mente e das emoções. 

Como afinal, deve ser a prática de ásanas?

A posição final de uma postura, independente se está sendo executada com flexibilidade ou não, é chamada de "estado do ásana” - em sânscrito, asana sthithi. O estado do ásana tem dois componentes:

  1. Estabilidade – em sânscrito, sthira
  2. Conforto – em sânscrito, sukha

No Yoga Sutra o verso que descreve a prática de ásana refere-se ao estado do ásana, e é bem simples:

2.46 sthiram sukham asanam = ásana é estável e confortável

Em todas as posturas que executamos deve haver a consciência de buscar alguma dose de estabilidade e conforto, tanto em termos físicos como mental. Mesmo nas posturas mais desafiadoras, a busca deve ser por um estado de equilíbrio e alegria - no corpo, na respiração e no estado emocional. 

Dependendo da postura, isso pode levar muito tempo - dias, meses e até mesmo anos. Mas a habilidade de praticar algo difícil de forma consistente, com calma e presença é um dos princípios da prática de yoga, porque nos treina para sermos resilientes e conscientes quando precisamos enfrentar os altos e baixos da vida.

Yoga deixa de ser algo acrobático quando usamos as posturas como forma de equilibrar o corpo, a respiração e a mente. As posturas estabilizam o corpo, a respiração estabiliza o sistema nervoso, e a mente pode ser estabilizada através dos drishtis, que são os pontos de fixação ocular que acompanham os ásanas.
 

4. PRANAYAMA

A prática de pranayama reune prana (respiração, vitalidade) com consciência. 

No Hatha Yoga Pradipika, uma antiga escritura, é dito:

"Quando a respiração se move, a mente se move. Quando a respiração está calma, a mente está calma. Controlando, portanto, a respiração, o Yogi atinge a estabilidade."
 

Respirar de forma calma vai acalmar a mente, e, da mesma forma, quando a mente se acalma, acalma a respiração. Contudo, é mais fácil começar esse processo pela a respiração do que pela mente, porque a respiração é facilmente manipulável, enquanto a mente pode ser bem mais trabalhosa.

Acalmar e controlar a respiração é algo que influência diretamente nossos estados emocionais. O objetivo máximo do Yoga é a estabilidade mental, e os exercícios de controle de respiração são ferramentas importantes para alcançar esse estado.

 

5. PRATHYAHARA

A prática de pranayamas, como dito anteriormente, é uma grande aliada na busca pela estabilidade mental. Contudo, há algo em nós que tem grande potencial para roubar a equanimidade mental: os sentidos.

Prathyara refere-se ao controle dos sentidos. Ou aprendemos a controla-los, ou eles nos controlarão.

Nossa sociedade ocidental funciona estimulando nossos desejos por meio dos sentidos – visão, paladar, tato, ofalto e audição. Se não aprendemos a controlar nossos sentidos, eles se tornam reféns de qualquer estímulo externo que os despertem.

Uma forma simples é modificar a forma automática de simplesmente ceder aos estímulos. Somos constantemente bombardeados, e é importante repensarmos a forma como respondemos. Retiros, jejuns, meditações, prática de silêncio – são exercícios que podem ajudar a "domar” o impulso voraz dos nossos sentidos, e direcioná-los para dentro.

Os nossos sentidos são como espelhos: se focados no exterior, vão refletir o mundo externo, e, se focados no nosso interior, vão refletir nossa essência.

 

6. DHARANA, 7. DHYANA E 8. SAMADHI

Os oito passos podem ser vistos como um processo de limpeza. Começamos pelo externo, revendo nossa relação com o mundo, através dos Yamas. Depois, nos voltamos para nós mesmos, quando estudamos e integramos os conceitos dos Nyamas. Estreitamos o entendimento e purificaçã do nosso corpo físico através da prática de Ásanas. Posteriormente, usamos os Pranayama e Pratyhara para estabilizar e mente e controlar os sentidos.

Esse caminho nos leva a interiorizar nossa energia, e nos prepara para o Samyama, que é a junção dos três últimos passos: 

Dharana, Dhyama e Samadhi. 

Esses podem ser descritos como três aspectos interligados da meditação. Mas não uma meditação corriqueira, e sim a nível de integração com o todo. É um processo que precisa dos primeiros cinco passos, e que não acontece da noite para o dia. 

Dharana refere-se à nossa capacidade de conseguir focar nossa atenção em algo. É a concentração que surge, por exemplo, na prática de ásanas, quando estamos extremamente focados nos aspectos da postura e na respiração. 

Dhyana é um tipo de concentração mais contínua. É quando temos espaços maiores entre um pensamento e o próximo. Enquanto Dharana é um tipo de concentração mais pontual, Dhyana pode ser visto como um fluxo ininterrupto. Se interrompido, volta a ser Dharana.

Samadhi é um estado de total fusão com o todo, no qual nossa identidade se perde. Nós nos tornamos um, com o todo. É um estado sutil e muito raro, que a maioria de nós desconhece ou teve apenas relances. É o objetivo último do praticante de yoga, um estado onde as flutuações da mente se cessam e o yogi finalmente se funde com a magnitude do todo.
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Tags: yoga patanjali 8 passos yamas nyamas dharana dhiana samadhi ahimsa tapas satya filosofia sutras
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